Capítulo II - PRODUTO 2ª Parte


O quê que haveria de levar para a reunião na fábrica? Como poderia eu explicar o produto que queria sem nenhuma ajuda visual? Afinal as pessoas não estão dentro da minha cabeça, dificilmente conseguiriam perceber o que eu queria exactamente!

Decidi recorrer a uma amiga minha designer de moda, e foi a melhor decisão que tomei. Nunca tinha confeccionado um produto, nem uma fronha de almofada. Ela já tinha feito uma colecção de raiz, desde o desenho até à costura. Ajudou-me a compreender os tecidos, a perceber como os materiais se comportavam juntos, a escolher fechos de boa qualidade, deu-me dicas e contactos importantíssimos de fornecedores de tecidos, empresas de sublimação, enfim vários pormenores, que ampliaram o meu limitado grau de conhecimento sobre a matéria.

Para além de todas estas pérolas de conhecimento, que demorariam dias ou semanas a descobrir no google, ela ainda foi uma fixe e fez-me um desenho técnico e ficha técnica do produto.

Um desenho técnico é basicamente a transposição da ideia que eu tinha em mente, em termos práticos e estéticos, para uma folha no illustrator. E ela ainda se excedeu! Ainda me ajudou a conceptualizar, de forma mais eficiente, todo o design interior e exterior da mochila, passando cada detalhe, para um complexo programa de computador, do qual eu não pescava nem um peixinho! 

A ficha técnica é basicamente como uma bibliografia, com todos os materiais discriminados a ser utilizados na mochila 

De todas as dificuldades que antecipei enfrentar, a concepção do produto, não era uma delas. Afinal estava a pagar, tinha o desenho e a ficha técnica, epá eles tinham de me dar o que eu pedia, não havia margem para erros! Julgava eu, meus amigos, julgava eu…

O processo de criação das mochilas consistia em várias fases. Primeiro era a fase do protótipo, além de ter um custo absolutamente exorbitante, que até tenho vergonha de dizer qual era, mas assumo ser superior a um ordenado mínimo nacional, consistia simplesmente em passar o que estava no desenho técnico (e na minha cabeça) para algo palpável.

Ainda que me tenham prevenido, de que os materiais que seriam utilizados na sua construção serem diferentes (entenda-se mais rascos) que os materiais da ficha técnica que posteriormente seriam utilizados na produção das mochilas, nada me fazia adivinhar o que aí vinha! N A D A!

O primeiro protótipo que recebi, depois de mil horas de reuniões, onde gastei saliva e saliva a explicar todos os pormenores, mas insisti sobretudo na característica chave de que queria a porcaria dos fechos atrás. Recebo, um cócó verde e amarelo, sem NENHUM fecho atrás!!

Chamo-lhe cócó, carinhosamente, porque aquela aberração podia ser chamada de outros nomes! Era de facto uma mochila, tinha duas alças e um espaço útil lá dentro, mas parecia uma mochila de 1,5€ com qualidade pior, que as mochilas dos chineses da Av. Roma! Para além disto, não tinha rigorosamente nenhuma semelhança ao desenho técnico! 

Ia tendo um ataque cardíaco fulminante quando vi isto! Nunca mais apago esta visão da minha memória! Estava em França, no meu velho apartamento que partilhava varanda com a minha caríssima vizinha, de extrema direita, super anti-tudo-o-que-não-é-franciú, (que saudades dos tempos em que ela berrava - com a sua linda voz estridente - por lavar a loiça depois das 21:00) quando recebi O mail. O mail que quase me mandava directamente para a cova! Ou para não ser tão dramática, me mandava para a bancarrota!

Fiquei pasmada a olhar para o monitor do computador, até que desatei a chorar! Sim eu sei clássico. Lá sequei as lágrimas e liguei à minha progenitora em busca de consolo. Não sei quem é que saiu melhor daquele telefonema… a minha querida mãe desconhecia o valor real que me foi cobrado pela elaboração do protótipo, eu menti-lhe porque achei que se ela sonhasse com a verdade me chamaria de maluca e em três tempos, convencia-me a desistir da ideia toda, mas, como estava a sentir-me burlada não tive outro remédio a não ser dizer o quão frustrada me sentia ao olhar para o cócó verde sabendo quanto me tinha custado aquele ataque de diarreia!  

Visto que estava protegida, pela beleza das chamadas à distância, não morri nem de ataque cardíaco (mero acaso) nem dos tabefes bem dados que a Sra. minha mãe estava preparada para disparar! Vim de urgência para Portugal e fui directa a braccara augusta, na esperança de conseguir um novo protótipo a custo 0€. 

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