Capítulo II - PRODUTO: 1ª Parte


 

Já sabia que queria uma mochila com os fechos atrás, mas sempre que tentava explicar a alguém a ideia, ninguém percebia logo à primeira, e fazia com que eu me sentisse uma verdadeira atrasada mental , a gesticular e a apontar para o meu cóccix, para conseguir explicar onde é que estariam os malditos fechos!

A esta hora, já estão a perceber o quão obcecada estive com as mochilas, se já estão fartos de me ouvir falar e fechos e mochilas, imaginem só por uns segundos, a paciência dos meus amigos e família ao ouvirem-me falar disto diariamente durante meses e meses a fio.

Este momento foi, tanto quanto o dia do assalto, um ponto de viragem.

Cheguei àquele dia, em que já não era possível conciliar o meu emprego em França (entretanto já tinha concluído a licenciatura) com a criação de esboços e o protótipo da mochila, tinha de voltar para Portugal. 

Imaginem quantas duvidas me assombravam. Voltei a ouvir aquelas velhas críticas familiares “vais trocar o certo pelo incerto”. 

E essas vozes tinham razão era isso que mais me perturbava! Não tinha argumentos para refutar estas verdades universais. Afinal, estava prestes a despedir-me e a mudar novamente de pasmas desta vez para o país da geração à rasca! Tinha a cabeça a andar à roda! Eram muitas decisões, que me sentia obrigada a tomar e que inevitavelmente, uma iria ser o custo de oportunidade da outra. Como decidir????

Cheguei à conclusão que, apesar de voltar para Portugal implicasse renunciar ao emprego estável que tinha, ainda não tinha créditos, nem dividas, nem filhos nem outros encargos financeiros relevantes que me “obrigassem” a ter um X por mês de rendimento fixo para sobreviver. E foi nesta ótica, que tomei uma decisão consciente e irreversível, de investir, neste projecto, tudo o que tinha. Tudo, até ao último € que tinha nas minhas micro poupanças. Tudo, e fiquei falida!

Nem dá para descrever a carga de nervos com que estava. O meu estômago andava às voltas, até emagreci (yei)!

Chegou a hora da verdade, ganhei coragem, com um bom shot de calvados - um licor típico da região onde vivia - que bebi corajosamente na hora de almoço antes de regressar ao trabalho e despedi-me! 

Foi a primeira vez que me despedi de um emprego a sério confesso que foi um misto de emoções. Foi assustador entrar no gabinete da minha boss e dizer-lhe: “vim só avisar que tomei a decisão de ser mochileira por isso a partir da data Y oriente-se!

Claro que não foi bem assim mas grosso modo foi este o discurso, também acho que há muito tabu à volta deste assunto, o despedimento deve ser levado com mais naturalidade, no meu caso tive sorte, porque consegui sair a bem, julgo (ou espero) que se por alguma eventualidade do destino, tiver de regressar a França terei as portas abertas na empresa.

Voltei a PT e voltei a pesquisar, o google tornou-se no meu melhor amigo, desta vez andava a pesquisar planos de negócio. Nunca tinha feito um plano de negócio, nem sabia por onde começar. Nunca tinha estudado gestão, como iria fazer um plano de negócios?! Só conseguia pensar em coisas tipo: “Isso inclui fazer contas?! Sou uma nódoa em matemática…nunca vou conseguir fazer isto”!

As únicas vantagens que tinha, eram o google e o facto de uma das minhas melhores amigas ter feito o curso de gestão.

Experienciei em primeira mão a beleza do networking da geração dos millennials. A grande vantagem da nossa geração, comparativamente à dos nossos pais, é termos acesso a uma panóplia de pessoas, todas com formações académicas superiores nas mais variadas áreas de actuação.

Isto é realmente algo que me fascina, ir a um jantar de aniversário de amigos, onde estão sentados à mesa, advogados, engenheiros, gestores, médicos, arquitectos, designers, fotógrafos, enfim, já perceberam a ideia?

Percebi que tinha ali, à mão de semear, todas as pessoas que me podiam fornecer as ferramentas necessárias para conseguir tornar o meu sonho realidade! 

A lição que retive foi, de que é sempre bom utilizarmos os activos que temos acessíveis, pelo menos para consulta de informação, antes de recorrermos a empresas para gerirem o nosso modelo de negócio. 

Isto porque, se enquanto empresário, vou recorrer a profissionais ou empresas para a realização dos diversos serviços que necessito para estabelecer a minha empresa, estes serviços em princípio, vão ser bem feitos, mas por não existir uma relação de proximidade entre as partes, dificilmente vão perceber o heart and soul da ideia ou do conceito por trás do branding, mas se recorrermos aos nossos fiéis comparsas de copos e de discussões filosóficas, somos capazes de obter informação mais relevante, ideias idóneas ao nosso modelo de negócios e serviços que ainda que possam não ser de tão boa qualidade quanto seriam os de uma verdadeira empresa, são efectuados com amor, são prestados com vontade de ajudar o amigo em necessidade.

E ainda que esta seja uma visão muito romântica da coisa, não tenho duvidas, de que se isto não fosse verdade, as minhas mochilas, hoje, seriam apenas uma ideia maluca que não sairia do papel, e nem sequer ficaria bem no papel… porque eu chumbei a oficina das artes lembram-se?!

Como os meus fundos eram limitados, muito limitados mesmo, considerando tudo o que ambicionava fazer. Não tive outra escolha a não ser pedir ajuda aos meus amigos, e ao velho perverso google.

Depois de encontrar uma fábrica em Braga, que me pareceu a melhor entre as várias candidatas que descobri, surgiram o quê? Stresses!…

4 comments

  • Mara Cardona

    Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado… Parabéns TC

  • Andreia Figueiredo

    Tendo eu própria uma startup estou a adorar rever-me nestas peripécias!

  • Dupont David

    Vraiment une bonne idée ce sac à dos et le résultat en vaut le détour. Je suis plus que content de ce produit.
    Je recommande ++++

  • Adriana Cunha

    Ainda bem que ainda existem empresas que optam por produzir no nosso país. Já estamos fartos que a China tenha todo o monopólio de produção.

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