Capítulo I - IDEIA


 

Pois é parece que consegui captar a vossa atenção. Então vou contar-vos como tudo começou…

Estava em Paris, com umas amigas “tugas”, elas tinham vindo para passar um fim de semana de meninas, estávamos a ser as típicas turistas. Fotografávamos tudo o que pudesse dar uns quantos likes no facetruques, falávamos alto, e sobre todos os assuntos (sim todos, mesmo os mais constrangedores) como se não houvessem mais portugueses em Paris - por sinal é coisa rara de se encontrar - gargalhávamos por todas as histórias que tínhamos vivido e por aquelas que ainda iríamos viver, e foi no meio desta galhofa toda no metro, ali em Montmartre, que ao sairmos na nossa paragem tivemos um ataque de pânico! 

Porque estávamos todas em modo turismo, estávamos de mochilas. Mochilas com: garrafas de água, souvenirs, máquinas fotográficas, go pro’s, maquilhagem, sandes sem queijo (uma coisa tão simples que se pode tornar numa verdadeira caça aos gambuzinos em Paris, mas isso fica para outra história…) enfim uma infindável quantidade de items tipicamente encontrados no buraco negro que é, por norma uma mala de senhora! 

E o que aconteceu? Uma de nós foi assaltada! Pois é, e foi logo aquela que tinha uma máquina fotográfica melhorzinha com as fotos mais cool… 

Este acontecimento marcou-me de tal forma, que dei por mim nos dias seguintes a obcecar com esta história! A rogar pragas aos carteiristas, e às pessoas que se devem ter apercebido do furto e que nada disseram, aos criadores das mochilas, por as terem concebido de forma tão estapafúrdia que toda a gente teria um acesso mais fácil ao conteúdo da mochila do que  o próprio dono!

Quando estava quase a queimar o fusível, comecei a pensar: “Mas porquê que será que as mochilas não têm os fechos e bolsos virados para as nossas costas?!”

Quer dizer, isto assim à primeira vista, até pode parecer estranho, mas a verdade é que todas as vezes que uso uma mochila, sempre que quero tirar ou pôr alguma coisa lá dentro, ou tenho a ajuda de alguém, ou tenho de a tirar das costas para o fazer. Por isso, já que tenho de a tirar das costas, custa-me de igual forma abrir um fecho que esteja no sítio dito normal ou um fecho que esteja localizado no lado de dentro, ou seja, no lado que toca nas minhas costas!

E andei a matutar nisto, meses! Até porque em 2016/2017 as mochilas são um must have em qualquer guarda-fato masculino ou feminino.

Comecei a olhar para esta ideia com outros olhos, como uma ideia possivelmente rentável. Afinal eu, enquanto consumidora, tinha uma necessidade, à qual o mercado não respondia, ou respondia precariamente.

Depois de ter a ideia, o próximo passo foi: Pesquisa.

Passei horas a tentar descobrir se este produto existia ou não no mercado, inicialmente nem sabia como iniciar a pesquisa. Afinal, como iria googlar mochilas com fechos atrás?! Isto até é difícil de explicar num só parágrafo, quanto mais em duas ou três palavras-chave?!

Foi nesta fase, que me deparei com a real necessidade, de dominar fluentemente ferramentas de pesquisa. Esta é uma skill fundamental para qualquer empresário, start-upo  ou trabalhador. E é daquelas coisas que não se aprende em nenhuma universidade, tem de partir de cada um. 

Já se sabe que o mecanismo do ensino, seja lá em que grau for, vai estar sempre obsoleto, comparativamente às necessidades que se fazem sentir no mercado de trabalho. Por isso, o que faz realmente a diferença entre os diferentes candidatos a um posto de trabalho, não são as notas nem as médias, é sobretudo a capacidade de cada um de auto-aprender, de se auto-melhorar, de se auto-superar. 

Embora estejamos confinados, a depender eternamente, de que o futuro empregador tenha a capacidade de ver, efectivamente, potencial no candidato. Aqui meus amigos, só depende de cada um, antes de tentarem vender o que quer que seja, aprendam a vender-se a vocês próprios. E com isto não quero dizer - mentir. Quero dizer para serem críticos com vocês mesmos, mas que saibam atribuir valor, não só aos graus académicos nem canudos, mas às vossas experiências pessoais que contribuíram para o vosso crescimento intelectual. 

O que é chave aqui, é saber retirar valor de todas as vivências e principalmente de todos os erros, para que no futuro, as singularidades de cada um acrescentem alguma coisa positiva a uma empresa ou negócio. E isto meus amigos, vai deixar-vos acordados muitas noites… para agarrar um falhanço pelos cornos e transforma-lo em valor, é preciso engolir muito orgulho e ter muito jogo de cintura. 

Vejamos um exemplo: um tipo que acabou a licenciatura, decidiu fazer uns trabalhinhos para ganhar uns eurozitos e fazer uma viagenzita ali para o Cambodja, e andar a engatar asiáticas durante um mês, não pode colocar no curriculum vitae licenciado e há um ano desempregado! Deve sim, embelezar a coisa, para que fique algo do género: licenciado, tira um gap year para desenvolver acções de acompanhamento a asiáticos que pretendam, eventualmente, estabelecer-se na europa, acções estas que implicam, o ensino de palavras chaves em diversas línguas europeias bem como introdução à cultura ocidental! 

Regressando à minha experiência pessoal, quando fui fazer a pesquisa para descobrir mais sobre mochilas com fechos nas costas as primeiras 10 pesquisas foram um verdadeiro fiasco! Só me apareciam páginas tipo: viaje com a mochila às costas ou use os fechos das mochilas para baixo para evitar assaltos e outros mil que nem tinham nada a haver com mochilas… por algum motivo o google encontra sempre alguma coisa relacionada com sexo! Esta é uma batalha que nunca vamos ganhar…

Porém, como já mencionei várias vezes, há que retirar sempre o positivo de uma situação e quando lá me deparei com a existência de dois ou três sites que efectivamente tinham mochilas com os fechos atrás, percebi logo que ok o produto que eu tinha pensado já existia (fiquei triste por não ter descoberto a pólvora) mas, não era SEO friendly o que para mim queria dizer automaticamente, que podia ter uma vantagem sobre esta concorrência directa se conseguisse contornar esse problema. 

Quando comecei a estudar as opções que existiam com as características que me interessavam, apercebi-me que os valores por unidade eram superiores a 150€ e chegavam a atingir os 500$ (sim eu sei os americanos papam tudo…ainda para mais mochilas com segurança para evitarem que o Trump lhes retire mais uns quantos $ para construir a grande muralha do merrico).

Humores à parte, estes valores pareceram-me completamente absurdos. Depois de aprofundar a pesquisa descobri que, a totalidade das mochilas eram produzidas na China, provavelmente por uma equipa sub 18 - aqui já entrei no ramo da especulação - mas ainda assim, reconhecendo que todos nós temos vários utensílios nas nossas casas made in china ou até mesmo, compradas nas várias lojas chinesas que se reproduzem como autênticos cogumelos no nosso país (pessoalmente culpo o golden visa por isto) acho que é consensual ao afirmar que a qualidade chinesa é muito duvidosa. E isto é um understatement!

Então decidi, que queria fazer uma mochila com os fechos atrás, de muito melhor qualidade que as que tinha visto! 

Só não fazia a minima ideia como iria atingir este objectivo, mas tudo bem.

A partir daqui, a minha vida foi o quê? Isso mesmo, pesquisa, mais pesquisa, mais pesquisa, mas desta vez de fábricas.

Apercebo-me agora que vocês devem estar aí a pensar, que tinha muito tempo livre em mãos, com nada com que me ocupar. Mas não tinha. Na verdade nem sabia para onde me havia de virar…

Já sabiam que estava em França, o que vocês não sabem, é que estava em França sem dominar a 100% a língua dos avecs em simultâneo estava a tirar a minha segunda licenciatura, leccionada em francês, sendo eu, o único ser de 1,59cm estrangeiro naquela turma com a agravante de que como bem sabemos, os franceses, em geral, não pescam nem uma palavra de inglês!! Aquela língua inglesa, universal, shakespiriana, que sempre tinha sido minha fiel aliada em todas as aventuras internacionais, ali, não me serviu para nicles. Para piorar o cenário, ainda tinha um emprego a full-time durante a semana e aos sábados de manhã! Por isso como iria eu ter tempo?!

Entre as pesquisas por conta própria e os queimanços de pestana voluntários, consumi horas de almoço, feriados, fins de semana, algumas horas de sono e toda a vida social que tinha para ter, aquela hora, aquela tarde ou aquele dia, para estar sentada à frente de um monitor a fazer pesquisas que 99% das vezes iam parar ao sexo outra vez, e pior, sem receber 1€ por isso!

Mas consegui, depois de me deparar com fábricas da Índia, da China, da Argentina e sei lá mais quantos países. Depois de falar por telemóvel, a pagar um rooming do caraças e perder o dobro do tempo porque ninguém percebia o que eu dizia em Inglês, visto o meu inglês ser uma fusão do português, com o britânico académico e o americano dos filmes, e eu não ter todo o vocabulário necessário para explicar concretamente o produto que queria, como o queria e com que materiais.

Este é o momento em que estão a pensar que eu não pesco nada de Inglês, mas modéstia à parte, isso não é verdade. Em minha defesa tentem lá dizer: cursores, forro e tecido reflector em inglês! Pois! Para isto já é preciso ser nível C2 ali no Cambridge!

Enfim depois de tanto embróglio, falei com a minha mãe ao telefone, e ela relembrou-me de uma coisa tão óbvia que até me envergonhei. Eu tenho família que trabalha com venda e retalho, tenho família que trabalha com fábricas de t-shirts e outros tecidos, talvez eles me possam dizer o nome de alguém e eu mando lá fazer as minhas mochilinhas!

Só que não… era tão bom se alguma coisa na minha vida fosse fácil… não conheciam ninguém nem que produzisse, nem que vendesse mochilas ou outro tipo de marroquinaria, e as fábricas com que eles trabalham nem sequer tinham máquinas para coser os materiais grossos das mochilas. 

Mas, tive outra ideia! Não tinha pesquisado fábricas de mochilas portuguesas por assumir automaticamente que o custo de produção seria muito mais elevado que em países de terceiro mundo, no entanto, como na minha índole, até sou uma cidadã preocupada com a economia do nosso país, decidi ainda assim pesquisar por fábricas de marroquinaria portuguesas.

Mais uma pesquisa daquelas complicadas… estive dias para encontrar um contacto que fosse, os que encontrava eram de cintos ou de carteiras ou de sei lá o quê! Aparentemente a marroquinaria desdobra-se em várias coisas, e cada coisa tem a sua fábrica, parece óbvio agora, mas na altura, não sabia, estava perdida a surfar nos mares da web!

3 comments

  • Raquel

    Morri a rir quando falas q qq pesquisa no google acaba sempre em sexo! É mesmo verdade!!

  • Pedro Sousa

    Hilariante e instrutivo! Venha o próximo!

  • Ricardo Graça

    Estou fan da tua escrita! Mal posso esperar para ler os restantes capítulos! Além de serem de digestão fácil os teus posts têm muita informação que como “startupo” considero super relevante! Obrigado

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